terça-feira, agosto 24, 2004

Balsemão zapa da política

Nos últimos tempos, o 'Expresso' optou por primeiras páginas um pouco mais populares. Isso é influência do estu­do da Innovation?
FPB - Mais populares não, menos políticas sim. É completamente diferente. Tomá­mos consciência, em todos os meios, de que as pessoas estão fartas da política só pela política. Na televisão por exem­plo, mal aparece uma notícia sobre o ministro que foi visi­tar qualquer coisa, ou sobre dois líderes do PSD que se zangaram, as pessoas imediatamente «zapam» e vão-se embora. O «Expresso», ape­sar de manter as «cachas» e o privilégio das grandes notíci­as em termos da política nacional, evoluiu, há já bastante tempo, para outro tipo de notícias. Aliás, um dos testes, hoje em dia, é ver, na edição electrónica, quais as notícias que as pessoas «clicam» mais, E, realmente, na primeira pá­gina, as não políticas têm pre­ferência sobre as políticas.

Entrevista de Paulo M. Guerrinha a Francisco Pinto Balsemão. Só nos interessa um acordo geral com a Portugal Telecom, Diário Económico, 09.03.1999, página 24.

O velho abutre

A história-macaca de Vítor Moura Pinto ter contado, antes dos colegas que estavam em Estocolmo, as pala­vras de Saramago na entrega do Nobel, querem os doutores de jornalismo que se chame furar um embargo. É assim: por vezes, os jornalistas negoceiam com o informador a hora da divulga­ção de uma notícia. Se cumprem, cum­prem; se não cumprem furam um embargo. Co­mo o negócio é feito entre iguais - tanto que é fei­to na base da confiança – não sei por que razão não se chama à violação dele, tão-só, faltar à pa­lavra. Já me irrita linguajar estreito dos advogados e mé­dicos, para estar a aturar também da parte dos jornalistas - cuja profissão é falar para todos - entorses ao falar co­mum. O que Vítor Moura Pinto fez foi faltar à palavra. O que é feio, tanto nos torneiros mecânicos como nos jornalistas - não é preciso ser membro do Con­selho Deontológico dos Jornalistas para entender.
O seco e inacessível Saramago, natural­mente embriagado pelo Nobel, deu em ser simpático com os repórteres. Mais: abriu-se em generosidades com os conter­râneos. E foi assim que o seu editor mostrou o discurso que Saramago iria profe­rir - para eles ficarem com uma ideia -, pedindo-lhes que não o tomassem pú­blico antes de ser oficialmente lido. Vítor Moura Pinto, um dos beneficiados pela confiança, foi o único que não resistiu à tentação de o ler antes do acordado.

Com a antecipação, o discurso pas­sou a ser de Vítor Moura Pinto – essa é que é essa. Não se falou de outra coi­sa - quando chegou a vez de Sarama­go discursar, já as suas palavras esta­vam estragadas. Nos anos 60, Sofia de Mello Breyner, também com notável poder de antecipação, já se tinha refe­rido ao maior dos talentos deste jorna­lista, ainda ele era uma criança. Cito de memória o poema (receio que com um ou outro erro, mas respeitando o es­sencial do retrato): «O velho abutre/ É velho e alisa as suas penas/ E os seus discursos/ Têm o dom de tornar/ As al­mas mais pequenas». Escarrapachadinho, o Vítor Moura Pinto.

Ferreira Fernandes. Sobre um escândalo e um esquecimento, Visão, 17.12.1998, página 18.

Pagar para ver

Qualquer semelhança entre os programas populares de TV ame­ricanos e portugueses deve ser pura coincidência. Senão veja­mos. Imagina-se a pagar bom di­nheiro para poder assistir aos campeões de audiência «Big Show SIC» e «Roda dos Mi­lhões»? Ou fica com a sensação de que aquela gente deve ser bem paga para conseguir rir e aplau­dir? A verdade é que há progra­mas, nomeadamente na cadeia norte-americana CNN, em que a lista de espera não só pode chegar aos seis meses como o preço a pa­gar pode atingir os 300 dólares, qualquer coisa como 52 contos. É o que acontece com «Late Show», do prestigiado David Letterman. O que já levantou dúvidas sobre a legalidade da cobrança.

Diário de Notícias, sem título, artigo não assinado, 26.11.1998, página 58.

Masturbação do telecomando

"Esta masturbação do telecomando chama-se zapping. É um movimento automático e interminável que fragmenta qualquer sequência, fazendo com que tudo se pareça com um anúncio. O zapping é a afirmação histórica da lógica de desorganização. Antes do advento do telecomando este processo mental chamava-se esquizofrenia".
Fragmentação, ou “pedagogia do fragmento”, que alterará de modo sensível a tradicional aprendizagem lógico-verbal, tendo como consequência principal, ainda segundo Andreoli, a “transformação do «homem lógico-verbal» em «homem-spot».

Comunicação de Vittorino Andreoli na conferência “Reinventar a Televisão”. Citado por JOÃO LOPES, artigo “A cultura do «zapping»”, Revista do “EXPRESSO”, 29.09.1995.

Autocensura prometida, mas não devida

Aqui há meses, por sugestão do sem­pre inefável Diário de Notícias, qua­se todos os directores dos principais ór­gãos de informação portugueses com­prometeram-se, solene e publicamente, a não publicar mais notícias sobre as intimidades sexuais do presidente Bill Clinton.
Uma insólita autocensura colectiva, a que apenas se recusaram (se bem me lembro...) os directores de O Indepen­dente e do 24 horas.
Nós, os dissidentes, ficámos à es­pera para ver. E o que se viu, nos últi­mos tempos, foi que os directores dos autoproclamados jornais de referên­cia se fartaram de violar a regra que a si próprios se tinham imposto, relatan­do tudo e mais alguma coisa sobre o ca­so Monicagate, incluindo a cor das cuequinhas da menina.
Este festival de coerência acabou on­tem à noite, na SIC, com a transmissão das confissões de Monica ao Channel 4. Um excelente golpe de Emídio Ran­gel, que certamente já nem se lembra de ter assinado, também ele, o tal ma­nifesto da autocensura.

José Rocha Vieira. Promessa da treta, 24 horas, 05.03.1999, página 2.

segunda-feira, abril 26, 2004

Ir só às terras cujo nome comece por determinadas letras?

“Digam-me cá: onde houve janeiras mais participadas e variadas que as de Vila Real? E porque não veio a RTP1 dar um estimulozinho àqueles cantadores para que continuem a preservar a sua cultura tradicional? Qual o critério por que se regeu o noticiário das janeiras? Haver ou não haver verba para combustível? Ir só às terras cujo nome comece por determinadas letras? Ir só às dos compadres? Moeda ao ar? Nenhum?” .

A. M. Pires Cabral. O árbitro da realidade, jornal Repórter do Marão, Janeiro 1998.