Nos últimos tempos, o 'Expresso' optou por primeiras páginas um pouco mais populares. Isso é influência do estudo da Innovation?
FPB - Mais populares não, menos políticas sim. É completamente diferente. Tomámos consciência, em todos os meios, de que as pessoas estão fartas da política só pela política. Na televisão por exemplo, mal aparece uma notícia sobre o ministro que foi visitar qualquer coisa, ou sobre dois líderes do PSD que se zangaram, as pessoas imediatamente «zapam» e vão-se embora. O «Expresso», apesar de manter as «cachas» e o privilégio das grandes notícias em termos da política nacional, evoluiu, há já bastante tempo, para outro tipo de notícias. Aliás, um dos testes, hoje em dia, é ver, na edição electrónica, quais as notícias que as pessoas «clicam» mais, E, realmente, na primeira página, as não políticas têm preferência sobre as políticas.
Entrevista de Paulo M. Guerrinha a Francisco Pinto Balsemão. Só nos interessa um acordo geral com a Portugal Telecom, Diário Económico, 09.03.1999, página 24.
terça-feira, agosto 24, 2004
O velho abutre
A história-macaca de Vítor Moura Pinto ter contado, antes dos colegas que estavam em Estocolmo, as palavras de Saramago na entrega do Nobel, querem os doutores de jornalismo que se chame furar um embargo. É assim: por vezes, os jornalistas negoceiam com o informador a hora da divulgação de uma notícia. Se cumprem, cumprem; se não cumprem furam um embargo. Como o negócio é feito entre iguais - tanto que é feito na base da confiança – não sei por que razão não se chama à violação dele, tão-só, faltar à palavra. Já me irrita linguajar estreito dos advogados e médicos, para estar a aturar também da parte dos jornalistas - cuja profissão é falar para todos - entorses ao falar comum. O que Vítor Moura Pinto fez foi faltar à palavra. O que é feio, tanto nos torneiros mecânicos como nos jornalistas - não é preciso ser membro do Conselho Deontológico dos Jornalistas para entender.
O seco e inacessível Saramago, naturalmente embriagado pelo Nobel, deu em ser simpático com os repórteres. Mais: abriu-se em generosidades com os conterrâneos. E foi assim que o seu editor mostrou o discurso que Saramago iria proferir - para eles ficarem com uma ideia -, pedindo-lhes que não o tomassem público antes de ser oficialmente lido. Vítor Moura Pinto, um dos beneficiados pela confiança, foi o único que não resistiu à tentação de o ler antes do acordado.
Com a antecipação, o discurso passou a ser de Vítor Moura Pinto – essa é que é essa. Não se falou de outra coisa - quando chegou a vez de Saramago discursar, já as suas palavras estavam estragadas. Nos anos 60, Sofia de Mello Breyner, também com notável poder de antecipação, já se tinha referido ao maior dos talentos deste jornalista, ainda ele era uma criança. Cito de memória o poema (receio que com um ou outro erro, mas respeitando o essencial do retrato): «O velho abutre/ É velho e alisa as suas penas/ E os seus discursos/ Têm o dom de tornar/ As almas mais pequenas». Escarrapachadinho, o Vítor Moura Pinto.
Ferreira Fernandes. Sobre um escândalo e um esquecimento, Visão, 17.12.1998, página 18.
O seco e inacessível Saramago, naturalmente embriagado pelo Nobel, deu em ser simpático com os repórteres. Mais: abriu-se em generosidades com os conterrâneos. E foi assim que o seu editor mostrou o discurso que Saramago iria proferir - para eles ficarem com uma ideia -, pedindo-lhes que não o tomassem público antes de ser oficialmente lido. Vítor Moura Pinto, um dos beneficiados pela confiança, foi o único que não resistiu à tentação de o ler antes do acordado.
Com a antecipação, o discurso passou a ser de Vítor Moura Pinto – essa é que é essa. Não se falou de outra coisa - quando chegou a vez de Saramago discursar, já as suas palavras estavam estragadas. Nos anos 60, Sofia de Mello Breyner, também com notável poder de antecipação, já se tinha referido ao maior dos talentos deste jornalista, ainda ele era uma criança. Cito de memória o poema (receio que com um ou outro erro, mas respeitando o essencial do retrato): «O velho abutre/ É velho e alisa as suas penas/ E os seus discursos/ Têm o dom de tornar/ As almas mais pequenas». Escarrapachadinho, o Vítor Moura Pinto.
Ferreira Fernandes. Sobre um escândalo e um esquecimento, Visão, 17.12.1998, página 18.
Pagar para ver
Qualquer semelhança entre os programas populares de TV americanos e portugueses deve ser pura coincidência. Senão vejamos. Imagina-se a pagar bom dinheiro para poder assistir aos campeões de audiência «Big Show SIC» e «Roda dos Milhões»? Ou fica com a sensação de que aquela gente deve ser bem paga para conseguir rir e aplaudir? A verdade é que há programas, nomeadamente na cadeia norte-americana CNN, em que a lista de espera não só pode chegar aos seis meses como o preço a pagar pode atingir os 300 dólares, qualquer coisa como 52 contos. É o que acontece com «Late Show», do prestigiado David Letterman. O que já levantou dúvidas sobre a legalidade da cobrança.
Diário de Notícias, sem título, artigo não assinado, 26.11.1998, página 58.
Diário de Notícias, sem título, artigo não assinado, 26.11.1998, página 58.
Masturbação do telecomando
"Esta masturbação do telecomando chama-se zapping. É um movimento automático e interminável que fragmenta qualquer sequência, fazendo com que tudo se pareça com um anúncio. O zapping é a afirmação histórica da lógica de desorganização. Antes do advento do telecomando este processo mental chamava-se esquizofrenia".
Fragmentação, ou “pedagogia do fragmento”, que alterará de modo sensível a tradicional aprendizagem lógico-verbal, tendo como consequência principal, ainda segundo Andreoli, a “transformação do «homem lógico-verbal» em «homem-spot»”.
Comunicação de Vittorino Andreoli na conferência “Reinventar a Televisão”. Citado por JOÃO LOPES, artigo “A cultura do «zapping»”, Revista do “EXPRESSO”, 29.09.1995.
Fragmentação, ou “pedagogia do fragmento”, que alterará de modo sensível a tradicional aprendizagem lógico-verbal, tendo como consequência principal, ainda segundo Andreoli, a “transformação do «homem lógico-verbal» em «homem-spot»”.
Comunicação de Vittorino Andreoli na conferência “Reinventar a Televisão”. Citado por JOÃO LOPES, artigo “A cultura do «zapping»”, Revista do “EXPRESSO”, 29.09.1995.
Autocensura prometida, mas não devida
Aqui há meses, por sugestão do sempre inefável Diário de Notícias, quase todos os directores dos principais órgãos de informação portugueses comprometeram-se, solene e publicamente, a não publicar mais notícias sobre as intimidades sexuais do presidente Bill Clinton.
Uma insólita autocensura colectiva, a que apenas se recusaram (se bem me lembro...) os directores de O Independente e do 24 horas.
Nós, os dissidentes, ficámos à espera para ver. E o que se viu, nos últimos tempos, foi que os directores dos autoproclamados jornais de referência se fartaram de violar a regra que a si próprios se tinham imposto, relatando tudo e mais alguma coisa sobre o caso Monicagate, incluindo a cor das cuequinhas da menina.
Este festival de coerência acabou ontem à noite, na SIC, com a transmissão das confissões de Monica ao Channel 4. Um excelente golpe de Emídio Rangel, que certamente já nem se lembra de ter assinado, também ele, o tal manifesto da autocensura.
José Rocha Vieira. Promessa da treta, 24 horas, 05.03.1999, página 2.
Uma insólita autocensura colectiva, a que apenas se recusaram (se bem me lembro...) os directores de O Independente e do 24 horas.
Nós, os dissidentes, ficámos à espera para ver. E o que se viu, nos últimos tempos, foi que os directores dos autoproclamados jornais de referência se fartaram de violar a regra que a si próprios se tinham imposto, relatando tudo e mais alguma coisa sobre o caso Monicagate, incluindo a cor das cuequinhas da menina.
Este festival de coerência acabou ontem à noite, na SIC, com a transmissão das confissões de Monica ao Channel 4. Um excelente golpe de Emídio Rangel, que certamente já nem se lembra de ter assinado, também ele, o tal manifesto da autocensura.
José Rocha Vieira. Promessa da treta, 24 horas, 05.03.1999, página 2.
segunda-feira, abril 26, 2004
Ir só às terras cujo nome comece por determinadas letras?
“Digam-me cá: onde houve janeiras mais participadas e variadas que as de Vila Real? E porque não veio a RTP1 dar um estimulozinho àqueles cantadores para que continuem a preservar a sua cultura tradicional? Qual o critério por que se regeu o noticiário das janeiras? Haver ou não haver verba para combustível? Ir só às terras cujo nome comece por determinadas letras? Ir só às dos compadres? Moeda ao ar? Nenhum?” .
A. M. Pires Cabral. O árbitro da realidade, jornal Repórter do Marão, Janeiro 1998.
A. M. Pires Cabral. O árbitro da realidade, jornal Repórter do Marão, Janeiro 1998.
Subscrever:
Mensagens (Atom)